No espaço onde trabalha, no início de agosto de 2012, Elifas Andreato inicia os trabalhos do Painel que irá retratar a Tortura no Brasil no período de 1964 a 1985.

Em seus depoimentos, que fazem parte do registro deste projeto, fala sobre os motivos que o levaram à criação deste trabalho. Comenta que em alguns anos de terapia havia sempre uma pergunta do psiquiatra: "Por que você não faz algumas ecomendas para você mesmo e deixa de atender somente as encomendas dos outros ?"

Elifas diz que quando estava mudando isso novas encomendas voltaram a aparecer e este trabalho passou a ser o mais difícil de sua carreira porque quando foi convidado para fazer a marca da Comissão da Verdade foi participar de um encontro em Brasília com as Comissões de Direitos Humanos dos países Latino-Americanos, países onde a CIA e a Polícia Israelense, com medo do comunismo, instalaram suas ditaduras.

Nos dois dias de debates na Câmara Federal, as leis brasileiras de anistia foram referenciadas entre outros temas, na comparação com as leis de outros países como a Argentina, por exemplo, que de modo mais eficientes foram aplicadas e os respectivos ditadores e torturadores foram presos, sendo que o Brasil fez uma lei que perdoou a todos.

Sempre com o auditório lotado, várias pessoas deram depoimentos diversos, muito "horrorosos", comenta Elifas que achava que sabia e conhecia todos os tipos e métodos de torturas praticados pelos torturadores da polícia política brasileira, no periodo de 1964 a 1985. Na última noite, durante o jantar, um senhor, presidente da Comissão Chilena, acabou transformando o pedido em uma ordem, a qual Elifas passaria a cumprir depois das seguintes palavras proferidas por esse membro da comissão:

- Elifas, quando se vêm as imagens do holocausto, você acredita que aquilo foi feito... Eles mataram mais de seis milhões de judeus na segunda guerra mundial. Aqui se praticaram barbaridades nos calabouços, nos cárceres, etc... mortes, torturas, estupros e o desenvolvimento da tecnologia de tortura.

Daí saiu a encomenda de um painel que pudesse demonstrar essas imagens, e que ficaria exposto no Congresso Nacional a partir do dia 5 de dezembro, alguns dias antes do Dia Internacional dos Direitos Humanos, 10 de dezembro.

Já empenhado há mais de um mês, trabalhando mais de 15 horas por dia para entregar esta encomenda, ele que pensava que depois de tanto tempo passaria a realizar apenas suas próprias encomendas, estava novamente fazendo uma encomenda alheia, que considera do país, da "Verdade ainda que Tardia".

Fazer esse painel em um curto espaço de tempo tornou-se um grande desafio, pois passaria a denunciar o que foi praticado nos cárceres, neste periodo triste da história brasileira.

Não conseguiu evitar a ansiedade e ao mesmo tempo o temor e a dor de estar fazendo coisas tão horríveis, mas sentiu-se no dever de fazer o mais fiel possível aquilo que foi praticado contra pessoas, suspeitos, nem todos comprovadamente comprometidos com qualquer causa política, mas no entanto eram barbaramente torturados, assassinados, e os corpos de muitos deles nunca foram encontrados. Todos eles brasileiros, todos de sua geração, a qual considera vitoriosa pelo simples fato de estar vivo, está pintando isso, sendo que boa parte de seus companheiros estão por aí escrevendo livros, fazendo música, teatro e considera ganha essa parada.

De qualquer maneira, pintar estupros, empalamentos com cassetete, funil queimando mulheres e homens, pau de arara, afogamento, cadeira do dragão, crucificamento (maneira de romper músculos e nervos dos torturados), é muito difícil.

Uma tarefa difícil, dolorosa, penosa mas necessária, pois considera ser a pessoa que tinha que fazer isso porque ao longo desses tantos anos só trabalhou para que se restaurasse a democracia no país, e para isso entregou parte de sua juventude e seu trabalho, fazendo aquilo que considerava necessário, lutando sempre contra o arbítrio, injustiça, intolerância e o preconceito, e também contra um regime estúpido que punia por aquilo que não podia compreender.

De sua geração, excluindo os humoristas que fizeram um extraordinário trabalho de oposição ao regime, mas com humor, nenhum outro pintor (Elifas não se considera um pintor e sim um artista gráfico) retratou isso. Militando há muitos anos na imprensa brasileira, no teatro, na música, na literatura, foi sempre o desenhista com coragem suficiente para fazer aquilo que muitos covardes preferiram o abrigo seguro da covardia.

Teve muito medo mas nunca deixou de fazer o que a história pediu que fizesse, nunca deixou de fazer aquilo que parecia necessário ser feito e justamente por isso nunca trocou nada por dinheiro; aos 65 anos de idade considera-se velho; muitas vezes refletindo sobre toda essa trajetória, descobre que fez o que tinha que fazer da maneira que sabe fazer.


Citando Frank Sinatra e Paul Anka, autores da canção, diz:


"Ao meu modo eu fiz o meu caminho... My Way!"

 


elifas@averdadeaindaquetardia.com.br